Jornalista vencedora do “Troféu Mulher Imprensa” relata ter sofrido discriminação

Há 40 anos, Miriam Leitão entrou em uma redação de jornal e nunca mais quis sair. “Eu não tinha nem optado pelo curso de Jornalismo, mas pelo curso de História. Um dia, antes de entrar na faculdade, fui procurar um emprego, por acaso em um jornal, e nunca mais saí de lá”, relembra.

Há quase 30, fez também sua primeira participação em um programa televisivo. “Por volta de 1983, a Abril teve uma produtora, a Abril Vídeos, e gravava quatro horas de programação diária, que passava na TV Gazeta. Tinha muita gente boa, como Paulo Markun, Mona Dorf, Silvia Poppovic, Narciso Kalili”.

Hoje, a colunista do jornal O Globo, comentarista de economia da TV Globo e da Rádio CBN e apresentadora do Globo News segue diversificando seus espaços de atuação, tendo como base fundamental uma boa apuração.  “Buscar informação é a base de tudo, em qualquer mídia. Se você não conversar muito, almoçar muito com fonte, visitar muita empresa, a informação não aparece”, afirma.

Vencedora do “Troféu Mulher IMPRENSA” nas categorias colunista de jornalismo impresso e comentarista/colunista de TV, Miriam Leitão fala à IMPRENSA sobre os desafios do jornalismo econômico brasileiro, de sua fama de “jogar duro” com políticos e candidatos e dos desafios para se firmar em uma editoria predominantemente masculina.

IMPRENSA – Com os prêmios que acaba de ganhar, você se tornou a jornalista mais premiada do “Troféu Mulher IMPRENSA”. Qual é a importância disso na sua carreira?

MIRIAM LEITÃO – Em primeiro lugar, este salto de 80 mil para 190 mil de votantes na Internet mostra que o prêmio está ganhando musculatura e representatividade. Desde a primeira vez que eu recebi, fiquei muito feliz, mas esse ano foi impressionante. As pessoas comentavam pelo Twitter sobre quem estava na frente. Hoje, em O Globo, estão muito felizes com a Vera [Araújo, vencedora na categoria repórter de jornal], vieram conversar comigo também, me abraçar e tal. Ou seja, foi um prêmio que começou discreto e foi ficando cada vez mais importante.

Sendo a área econômica, predominantemente masculina, foi discriminada em algum momento de sua carreira?

Foi difícil, sim. Enfrentei discriminação, sim. E superei. Às vezes, com ajuda de homens maravilhosos que encontrei no caminho. Eu queria citar dois homens que foram fundamentais nisso. Um é o Sidnei Basile, falecido no ano passado, que me ensinou o que eu sei de jornalismo econômico, o outro é o Marcos Sá Correa, que foi quem me nomeou editora de economia e colunista de economia, no JB, nos anos 80. Encontrei homens que me discriminaram e homens que me impulsionaram. E os que impulsionaram eram melhores que os que me discriminaram.

Você acha que o jornalista econômico brasileiro sabe cobrar devidamente e lidar com as autoridades oficiais e o poder público em geral?

O jornalista econômico já sabe ter uma atitude de independência e de cobrança em relação ao setor público. Mas, precisa ter mais esse tipo de atitude ao entrevistar empresários. Principalmente, o grande empresário que, muitas vezes, está financiado pelo BNDES e acha que não tem que prestar contas de sua cadeia de fornecedores. Que tipo de atitude ele está convalidando? E se ele está aceitando desmatamento ilegal, por exemplo? Vejo entrevistas com empresários que têm controvérsias grandes em seus comportamentos, em suas decisões, e são tratados como se fossem estadistas.

Você é conhecida por fazer entrevistas duras com candidatos e políticos. É fundamental não aceitar a informação como ela chega dessas fontes?

Eu acho fundamental. Na campanha eleitoral o candidato tem o palanque, o horário eleitoral, o “marketeiro” e o media training que vão ensinar como ele deve falar. E quando você tem o privilégio de entrevistar o candidato, você tem que estudar exatamente tudo que há de contradição na vida de todos eles. É uma postura de não aceitar uma mentira, uma resposta mal-explicada ou contraditória. Você tem que mostrar que a coisa não se sustenta.

No episódio da sua entrevista com a Dilma, pela rádio CBN, na campanha de 2010, ela respondeu sua pergunta ou fugiu dela?

Ela fugiu da minha pergunta. O que eu estava dizendo é que, no momento em que o Brasil tinha toda a chance de ter déficit fiscal zero, ela havia dito que isso era rudimentar. Ou seja, a proposta do Palocci, que era o cara que tava coordenando a campanha dela, era rudimentar. Ela detonou a proposta. Então, eu estava falando para ela que se o Brasil estivesse chegado ao déficit zero, estaria mais aberto para investir agora na crise. Mas, ela tentou atacar, disse que eu tinha errado no conceito, mas eu não tinha errado no conceito.

Assista ao vídeo da discussão entre Dilma Rousseff e Miriam Leitão

E o episódio com o Serra, também na sabatina de 2010, na CBN? Você acha que exagerou ali?

O Serra passou a vida inteira dando declarações ambíguas sobre a independência do Banco Central. Eu queria entender como seria isso no governo dele. Aí ele reagiu muito mal à insistência com que eu perguntei. Eu não gosto de abandonar minha pergunta, se eu pergunto “A” e a pessoa reponde “B”, eu falo: mas eu perguntei “A”. Você tem que deixar claro para a pessoa que está assistindo que o entrevistado fugiu da pergunta. Não acho que exagerei, quem perdeu a cabeça foi ele, que começou a discutir com a pergunta.

Assista ao vídeo da discussão entre José Serra e Miriam Leitão

Como uma das premiadas gostaria falar algo especial?

Sim, esse prêmio é o “Troféu Mulher IMPRENSA” e eu queria dizer que eu gosto muito de ser mulher. Quando cheguei ao jornalismo ele já era dos homens. Eu tive que conquistar meu espaço, então você ganha musculatura nessa briga por espaço. As mulheres ocupavam 18% da população economicamente ativa, e hoje são 44%. Foi um salto impressionante que aconteceu na minha geração. Por que se deve destacar a mulher com um prêmio? Com um troféu? Porque, como todos os grupos que são discriminados, estão em condições desiguais, eles precisam ser, sim, iluminados… Gosto do dia da mulher, do prêmio da mulher, da mesma forma que eu gosto do dia da consciência negra… Este dia é para se pensar, para se refletir o papel da mulher na sociedade. Então, eu fico duplamente encantada para ganhar este prêmio.

[ + ] Fonte: Portal Imprensa

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